Arraial da Auto Ajuda

Sinopses e resenhas para desconstruir a auto ajuda

20.1.09

Quem Mexeu no Meu Queijo?

1 - Sinopse

2 - Esta NÃO é uma fábula sobre mudança

3 - Pílulas de sabedoria

4 - Uma citação incompreensível

5 - Conclusão

1 – Sinopse

“Quem Mexeu no Meu Queijo?”, de Spencer Johnson, pretende-se uma fábula sobre a inevitabilidade da mudança e sobre como as pessoas devem portar-se diante dela: com disposição para identificar as pequenas mudanças e coragem para reagir diante das grandes. O livro é dividido em três partes principais.

Na primeira parte um grupo de amigos encontra-se em um almoço para trocar reminiscências e experiências acerca de suas vidas. Houve relatos de pessoas que enfrentaram dificuldades maiores do que as que previam e pessoas que declararam ter medo de mudanças. Um dos participantes da reunião tomou a iniciativa de contar uma história que o fez ver as mudanças de uma forma positiva.

A segunda parte do livro consiste na exposição da história. Dois ratos, Sniff e Scurry, convivem em um labirinto com dois duendes, Hem e Haw. Os ratos representam seres instintivos e irracionais, ao passo que os duendes representam seres humanos com sua capacidade de emocionar-se e refletir. Todos alimentam-se de queijo, encontrado em grandes quantidades em um local chamado Posto C. Ratos e duendes convivem satisfeitos e seguros com sua reserva de alimento, embora não saibam de onde vem o queijo. À medida que o tempo passa, porém, ocorrem mudanças: o suprimento de queijo torna-se cada vez menor, até que desaparece por completo do Posto C.

Os duendes demoraram a agir diante da mudança e por algum tempo continuaram a comparecer diariamente ao Posto C, na esperança de que houvesse queijo. Os ratos, por sua vez, não eram mais vistos por ali. Hem e Haw lamentavam-se inutilmente pelo queijo perdido, até que Haw decidiu ir buscar uma solução e saiu à procura de novo queijo. Hem continuou apegado à lembrança dos bons tempos de fartura e recusou-se a sair de onde sempre esteve, continuando a reclamar da injustiça daquela situação.

Em sua busca, Haw sofreu contratempos e passou por períodos em que encontrava queijo em quantidade insuficiente, mas acabou por encontrar uma nova fonte de queijo, no Posto N. Era um queijo diferente do antigo, porém muito saboroso. Foi surpreendente para Haw notar que os Sniff e Scurry haviam chegado ao Posto N bem antes dele, o que o fez pensar que perdeu tempo demais hesitando, agarrando-se ao velho queijo inexistente e temendo a mudança. Haw percebeu que sua vida mudara para melhor a partir do momento em que perdeu o receio de mudar.

A terceira parte do livro é um debate entre os participantes da reunião sobre a mensagem contida na fábula. Os amigos discutem suas experiências pessoais e traçam paralelos entre a coragem para mudar expressa na história e como aplicar esta coragem para enfrentar os desafios da vida real.

A introdução escrita por Kenneth Blanchard pode ser considerada também como uma parte importante na compreensão do significado do livro. Nela há uma breve porém decisiva interpretação para o enredo: o queijo é uma metáfora daquilo que é importante na vida de cada um. Pode ser o sucesso profissional, o equilíbrio entre carreira e família, bens materiais, relacionamento amoroso etc.

2 – Esta NÃO é uma fábula sobre mudança

Por paradoxal que pareça, o livro “Quem Mexeu no Meu Queijo?” não é um livro sobre mudança, embora queira fazer parecer que é. É um livro que conta uma fábula sobre a disposição de sair de um lugar para ir a outro, fazendo as mesmas coisas de sempre.

Se fosse um livro sobre a mudança, Haw teria vivido um périplo diferente. Ao sair pelo labirinto ele descobriria como é o processo de produção de queijo, o que daria motivação para uma mudança efetiva, que o levaria a superar a dependência de uma fonte misteriosa de alimento. Ele estudaria como produzir um bom queijo, faria um plano para produzi-lo em quantidades satisfatórias e seria um empreendedor, começando por ordenhar uma vaquinha para obter matéria-prima para o queijo, depois duas, depois trinta, depois mil. E criaria uma indústria de laticínios, na qual seria auxiliado pelo seu amigo Hem.

A típica mensagem de auto ajuda subjacente a esta fábula talvez fosse: “seja você mesmo o provedor do seu queijo; descubra o que o faz feliz, vá à fonte que pode suprir seus desejos e construa o que é necessário para sua satisfação; tome seu destino em suas mãos; não fique à mercê de um queijo que você não sabe de onde vem”.

Se a fábula dos duendes fosse conduzida por esta trilha, seria uma história tolinha, mas seria uma prosa sobre a mudança. Porém, não é assim. No começo do livro, Hem e Haw estão dispostos a encontrar queijo; quando o encontram, acomodam-se à situação; eles não sabem de onde o queijo vem e não sabem os motivos pelos quais o queijo deixou de ser suprido. Quando Haw sai em busca de novo queijo, ele reproduz integralmente sua atitude anterior: percorre o labirinto à procura de mais queijo e, quando o encontra, continua sem saber de onde veio e continua sujeito ao risco de perdê-lo. Exatamente como antes. Isso é mudança?

O título do livro é “Quem Mexeu no Meu Queijo?”. Faz crer que, ao final, os duendes terão a resposta; ou estarão aptos a superar a sujeição a uma fonte provedora misteriosa, que muda o queijo de lugar ao seu bel prazer. Mas não: ao final, os duendes continuam em sua grassa ignorância a respeito de onde vem o queijo e completamente sujeitos à dinâmica misteriosa que faz o queijo aparecer e sumir. Terminam o livro na mesma condição em que começaram, ou seja, ignorantes e impotentes; a única diferença é que um deles moveu-se para ir atrás de queijo novo. Onde está a mudança?

3 – Pílulas de sabedoria

“Quem Mexeu no Meu Queijo?” é um livro curtíssimo, que pode ser vencido em menos de uma hora de leitura.  Ao longo do texto, Spencer Johnson brinda seus leitores com truísmos a respeito do que ele julga ser um processo de mudança. São pérolas do tipo:

- “Quanto mais importante seu queijo é para você, menos você deseja abrir mão dele”;

- “Se você não mudar, morrerá”;

- “O movimento em uma nova direção ajuda-o a encontrar um novo queijo”;

- “É mais seguro procurar no labirinto do que permanecer sem queijo”.

Essas pílulas de sabedoria vão sendo escritas por Haw pelas paredes do labirinto e vão se tornando mais significativas à medida que o enredo avança, formando o que Spencer Johnson chamou de “o manuscrito na parede”. Depois, cada um desses “insights”, como o autor os denomina, é associado a uma ação supostamente relevante no processo de administração da mudança. Os exemplos mais marcantes dessa associação entre ação concreta e “insight” completamente ridículos são:

- ação: “Monitore a mudança”; insight: “cheire o queijo com frequência para saber quando está ficando velho”;

- ação: “adapte-se rapidamente à mudança”; insight: “quanto mais rápido você se esquece do velho queijo mais rápido pode saborear um novo”.

A pílula de sabedoria final deveria ser a mais complexa e mais esclarecedora da essência do livro: “sair do lugar assim como o queijo e gostar disso”. O mais intrigante nesta última tolice desprovida de significado é o fato de que o queijo não saiu do lugar voluntariamente, mas, por algum motivo, o auto recomenda que o leitor deve fazer a mesma coisa que o queijo. Esta é, portanto, a verdadeira essência do livro: Spencer Johnson não propõe que seus leitores mudem de fato, propõe apenas que saiam do lugar quando for inevitável, mesmo que não saibam qual o motivo. Basta conformar-se com o fato de que é necessário e agir em função disto. Como fazem os ratos.

4 – Uma citação incompreensível

Livros de auto ajuda costumam ter várias citações deturpadas ou deslocadas. Este possui uma única citação, logo no início da história - e sem distorções. Mas que citação! Trata-se de um verso de um poema de Robert Burns, poeta do final do século XVIII e glória da literatura escocesa. O nome do poema é “To a mouse” (“Para um rato”, em tradução livre) e eis aqui o verso citado: “os melhores planos de ratos e de homens costumam dar errado”.

É impressionante. O que será que Spencer Johnson quis dizer com isso? Que é melhor não fazer planos, pois ao final tudo tende ao insucesso, seja você um rato ou um homem?  Ou, talvez, que o melhor a fazer é correr tresloucado e a esmo pelo labirinto, na esperança de encontrar queijo sem ter feito nenhum plano? Ou será que só colocou a citação lá porque o poema é bacana, muito conhecido em países de língua inglesa e junta ratos e homens na mesma frase?

5 – Conclusão

O livro “Quem Mexeu no Meu Queijo?” é uma fábula infantilizada sobre ratos e duendes. Não fala sobre mudança e sim sobre movimento. Uma verdadeira mudança implicaria a superação da dependência do suprimento de queijo e do desconhecimento dos personagens sobre sua fonte misteriosa. Mas os duendes terminam o livro tão dependentes e ignorantes quanto começaram, embora um deles tenha resolvido o problema da falta de queijo quando dispôs-se a mudar de lugar.

Um livro que se dispusesse a falar seriamente sobre a mudança teria de tratar, no mínimo, das questões relevantes que um processo de mudança suscita:

- é preciso saber porquê mudar e quais são os riscos de optar por não mudar, para criar a motivação necessária à mudança (não apenas ser obrigado a mudar);

- é necessário adquirir o conhecimento e as competências requeridas para a mudança e estipular um plano: qual é a condição atual, como dever ser a condição futura, quais são os passos para chegar lá (não apenas sair correndo pelo labirinto);

- uma vez tendo estabelecida a mudança, é preciso que a condição inicial tenha sido superada; é necessário criar novas respostas baseadas em novas perguntas e novas informações, porque quem mudou terá abandonado o paradigma anterior e estará em um novo paradima; (não fazer o mesmo que antes em outro lugar, como o duende Haw).

Spencer Johnson fez com que ratos e duendes partilhassem juntos do primeiro suprimento de queijo e fez com que os ratos chegassem primeiro ao novo queijo. Quando o duende Haw chegou ao novo queijo, refletiu sobre o que o impedira de ter chegado lá antes dos ratos e concluiu que tratava-se do medo de mudar. Se não houvesse hesitado, não teria perdido tempo. Em suma: deveria ter feito como os ratos.

Os truísmos e lugares-comuns são o principal motor do enredo e seu ponto máximo são as tolices escritas pelo duende Haw, definidas como “o manuscrito na parede“. Não há nada no livro sobre realmente mudar para evoluir e sobre superar dificuldades a partir da compreensão de seus mecanismos. O que Spencer Johnson parece querer dizer em sua fábula bobinha é: “Não mude, não supere sua condição inicial. Mova-se e continue fazendo tudo igual em outro lugar”.

criado por marcoudia    17:59 — Arquivado em: Sem categoria

Nenhum Comentário »

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário


Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://arraialdaautoajuda.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.